Sunday, October 26, 2008
Monday, August 4, 2008
Inteligente e preguiçoso
Monday, July 7, 2008
Ser Pai
A experiência da paternidade/maternidade está profundamente enraizada na condição humana, sendo evidentes e profundas as mudanças que progressivamente se vão verificando nas últimas décadas na cultura ocidental, no que se refere do ser pai. É hoje muito frequente encontrar o pai como o progenitor activo, envolvido na prestação de serviços à criança –– mudar fraldas, dar banho, interagindo frequentemente com ela, partilhando tarefas domésticas e de educação –– em que as dimensões instrumentais são equilibradas com as emocionais e afectivas.
Podemos assim compreender melhor que Deus-Pai não é aquela figura distante e longínqua que nos foi transmitida ao longo de gerações, mas é um Pai que estabelece preferencialmente uma relação marcada pela ternura, pelo amor, pelo respeito e pela confiança, que se identifica mais com o Pai que nos revelou Jesus Cristo. Aliás, quando Cristo chama a Deus de Abba remeteu os seus contemporâneos para a experiência vital da relação humana pai/filho, experiência que indiciava contornos de uma proximidade e intimidade que os escribas e fariseus consideraram escandalosos, funcionando como um dos argumentos mais decisivos para O condenarem à morte.
A visão de complementaridade e cooperante a que se vai chegando na cultura actual sobre o ser pai e o ser mãe e o reconhecimento da sua importância no desenvolvimento das futuras gerações ajuda-nos a perceber, através desta matriz humana, que o Deus dos cristãos, Aquele que Jesus nos revelou no Evangelho é um Deus com um rosto de Pai e de Mãe, a quem podemos chamar de papá (Abba), sendo a grande referência ética e simultaneamente de ternura e Amor.
N.M.
Wednesday, June 11, 2008
A Comunidade
Martin Buber (1878-1965) procurou oferecer uma saída para a crise do homem contemporâneo: o estabelecimento sólido da comunidade, a mais autêntica forma de organização social.
Tudo parte da relação, que não é uma propriedade do homem, mas algo que acontece entre o homem e o que lhe está diante (Eu e Tu, 1923).
Buber fala de relação essencial, diálogo, encontro, inter-humano. Tais conceitos não são simples sinónimos. O encontro é algo actual, a relação engloba o encontro, ela possibilita um encontro sempre renovado. O diálogo é para ele a forma explicativa do fenómeno do inter-humano. O inter-humano é a realização concreta da vida dialógica, uma vez que, nesta situação, a pessoa se confronta realmente com outra, cada uma confirmando a outra reciprocamente.
No inter-humano não há lugar para as aparências ou para o simples “estar-ao-lado-do-outro”, para a imposição, a falsidade.
O dialógico realiza-se no inter-humano como um voltar-se para o outro, bem determinado e concreto e este ao voltar-se alicerça o estabelecimento de um “nós” que resguarda a individualidade, a responsabilidade e a liberdade de cada um. O “nós” congrega todos pela força de um centro comum, esteio da comunidade.
Para Buber somente este novo tipo de relações humanas - o dialógico - pode garantir mudança no estado em que o homem se encontra actualmente.
É muito importante o pensamento de Buber, pois faz com que reformulemos a nossa concepção do homem: não somos seres meramente individuais, somos sim seres em relação e cada vez que um homem se abre à presença do outro e dialoga, começa a sua libertação e a redenção do mundo.
A grande crise da nossa época é, também, uma crise de confiança, mas a difícil e única saída é abrir-se ao outro.
Descobrimos, assim, ajudados por Martin Buber uma das causas da solidão e amargura em que tanta gente hoje vive. Trata-se da tentativa de construir um projecto de vida, isoladamente, sem ser incomodado por ninguém, sem relação, a partir de um “eu” fechado em si mesmo, que nada recebe e nada entrega.
Buber repete-nos, até à saciedade, nas suas obras: recebemo-nos uns dos outros!
N.M.
Wednesday, May 7, 2008
“Vida com Esperança”
A Semana da Vida deste ano (11 a 18 de Maio) propõe-se reafirmar a Esperança, apesar da realidade quotidiana nos apresentar o homem de hoje como um ser profundamente lacerado: no seu interior, pela experiência negativa no que se refere ao bem que sonhava e pela incapacidade de perseguir a utopia; no exterior, pela verificação histórica de uma série de desilusões em que o deixou o mundo das ideologias e dos projectos revolucionários incompletos. Ficou um sentido de vazio profundo e muitos procuram o remédio na esfera do privado. São sábias as palavras de Maria Zambrano: “O homem ao afirmar-se a si mesmo tropeçou consigo próprio, enredou-se na sua própria sombra, no seu próprio sonho, na sua imagem; o sonho do seu poder e ainda do seu ser levado ao extremo, convertido em absoluto” (Pessoa e Democracia… 63).
É grande e urgente o desafio de reconstruir um eu íntegro, ou unificado, libertando-o das tendências do ego, ou seja da avidez de possuir e de se considerar absoluto. O eu unificado atinge-se esvaziando-se de si, despojando-se para se enriquecer na comunhão com Deus e com os outros. É tudo isto que nos ensina o Evangelho.
Bento XVI, na sua última Encíclica, Spe Salvi (Salvos na Esperança) desafia todos a trilhar os caminhos da Esperança fundamentada na Fé em Jesus Cristo. Uma fé que “atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro ‘ainda não’ (SS 7) e uma Esperança que nos implica, nos compromete no “aqui agora” e nos desafia a construir a história a partir das coordenadas das realidades últimas e não das penúltimas, porque finitas e limitadas.
N.M.
Monday, March 31, 2008
Recebemo-nos uns dos outros
A obra de Martin Buber, em que tem lugar de destaque e referência constante o livro “Eu e Tu” (1923), centra-se na afirmação das relações interpessoais e comunitárias da condição humana: “No princípio está a relação”.
O pensamento de Buber sublinha que não somos seres meramente individuais, somos sim seres em relação e cada vez que um homem se abre à presença do outro e dialoga, começa a sua libertação e a redenção do mundo.
Cada vez mais abrem caminho no mundo ocidental, o individualismo, o egoísmo e a indiferença, no contexto da sociedade do hiper-consumo. Surge e alastra um novo culto, o do “eu”, onde o outro está quase sempre a mais e não lhe é permitido ocupar senão três posições: uma coisa a possuir ou a deitar fora, um meio a utilizar para eu atingir os meus fins, ou um rival a eliminar.
Há uma grande diferença entre o dom e a posse: a posse é solidão! Enquanto virmos apenas objectos, estamos sós. O dom (relação) é como um vaso muito frágil cheio de afecto. Quebra-se logo que o recebedor o comece a considerar como seu.
Descobrimos, assim, ajudados por Martin Buber, uma das causas da solidão e amargura em que tanta gente hoje vive. Trata-se da tentativa de construir um projecto de vida, isoladamente, sem ser incomodado por ninguém, sem relação, a partir de um “eu” fechado em si mesmo, que nada recebe e nada entrega. Buber repete-nos, até à saciedade, nas suas obras: recebemo-nos uns dos outros!
N.M.
Wednesday, March 5, 2008
A Raiva
São muitos os jovens adolescentes que nem sequer querem ouvir os seus pais, reagindo quase sempre agressivamente. Não é preciso procurar muito para descobrir o marido que por tudo e por nada se zanga com a esposa cansada e preocupada. Recorde-se a mulher nervosa, que não admite a mais pequena observação e ainda o empregado que ao chegar a casa atormenta a família com palavrões sempre que o seu chefe estava de mau humor.
Falamos da raiva, resíduo em nós do reino infantil do capricho e das emoções sem controle. Basta observar a reacção das crianças pequenas quando são contrariadas: desatam a berrar, logo naquela circunstância em que era preciso silêncio. A criança é prepotente e agressiva, porque no fundo não consegue captar a diferença entre o próprio “Eu” e o mundo que a circunda.
O adulto comporta-se com raiva porque tem medo de não ser suficientemente importante, reconhecido e amado. O seu “Eu” enche-se de furor para mascarar o sentimento de insegurança.
Urge cultivar com paciência e perseverança, em tempo quaresmal, a mansidão. É oportuno recordar e fixar as sábias palavras de Hugo de S.Vitor: “A soberba tira-me Deus, a inveja o próximo, a ira a mim mesmo”.
N.M.
Wednesday, February 13, 2008
Reconciliar-se
Vivemos num mundo fragmentado e com ritmos quotidianos que não são propícios à unificação do ser profundo. É eloquente a descrição de Lipovetsky: “Quanto mais a sociedade se humaniza, mais o sentimento do anonimato se estende; quanto mais há indulgência e tolerância, mais aumenta a falta de segurança do indivíduo em relação a si próprio; quanto mais se prolonga o tempo de vida, mais cedo se tem de envelhecer; quanto menos se trabalha, menos se quer trabalhar; quanto mais os costumes se liberalizam, mais avança a impressão de vazio; quanto mais a comunicação e o diálogo se institucionalizam, mais sós se sentem os indivíduos e com maiores dificuldades de contacto; quanto mais cresce o bem estar, mais a depressão triunfa” (LIPOVETSKY, Gilles – A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água, 1989, 118).
Podemos acrescentar muitas outras questões paradoxais que estão hoje na ordem do dia, tais como: Porquê a desvalorização da vida humana nascente, na escala de valores? Como foi possível à nossa cultura, que se reclama humanista, pôr a liberdade humana contra a vida humana? Porquê a distinção discriminatória entre os seres humanos nascidos e os nascituros em gestação? Porque é que as leis humanas parecem interessar-se mais pela protecção de certas espécies vegetais (como o cortar determinada árvore) ou animais (como os ovos de cegonha) do que do ser humano em embrião ou feto?
Neste tempo marcado pela violência para muitos e de sobressalto para quase todos, em tempo de Quaresma, urge percorrer os caminhos da reconciliação com Deus, consigo próprio, com os outros, pressentir novos horizontes e decantar as perguntas que sempre assomam na nossa existência.
N.M.
Friday, January 4, 2008
“Os Limites”
Há algum tempo, surgiu nas salas de cinema um filme intitulado «Treze: a inocência perdida», realizado por Catherine Hardwick. O filme retrata a vida de uma família da classe média americana, sobretudo a de uma jovem adolescente com treze anos, que vive com a mãe e o irmão mais velho, uma vez que os pais estão divorciados.
Numa tentativa de se encontrar a si própria, a protagonista do filme acaba por cair numa vida marginal: desleixando os estudos, roubando, consumindo drogas e aventurando-se numa vida sexual promíscua. A mãe vai assistindo a este processo de decadência e destruição da própria filha, numa passividade que se confunde com tolerância e amor. Ora, é precisamente aqui é que está o grande perigo! Ao não criar limites a mãe acaba por esvaziar a sua presença e o seu próprio papel.
Os pais excessivamente bons e permissivos são tanto ou mais prejudiciais para os jovens como aqueles demasiado severos. É errado pensar que se pode educar sem limites. Os jovens precisam desses limites e os pais têm aqui um papel fundamental. Criar limites aos filhos é uma prova de amor! A ausência de limites gera confusão e leva a um «caos interior».
Por vezes é preciso dizer «não», «basta» ou «chega»! Não se pode fazer tudo o que se quer, ou o que se deseja. Porquê? Porque a vida não é assim! Por isso, é preciso aprendê-lo desde cedo.
O Dr. João dos Santos (um dos fundadores da pedopsiquiatria em Portugal) numa conferência que dava sobre sexualidade a determinada altura surgiu uma mãe que lhe colocou a seguinte questão:
«Eu já expliquei ao meu filho tudo sobre o nascimento das crianças, e ele agora quer ver mesmo como é que os pais fazem, quer estar lá no quarto para ver como é. O que é que o Sr. fazia?», ao que o Dr. João dos Santos respondeu com simplicidade: «Olhe minha Sra., se fosse comigo eu dava-lhe dois estalos…!».
N.M.
Thursday, December 6, 2007
O Stress
A palavra stress foi adoptado pela primeira vez em 1936, pelo cientista canadense, Hans Selye. Com o passar dos anos tornou-se um termo jornalístico relacionado com o cansaço, com o esforço, com o peso das responsabilidades e solicitações. Indica uma reacção não especifica do organismo.
É decisivo que tomemos consciência de que há hoje demasiada pressa, exagerada ansiedade, excesso de tecnologia: a nossa existência tornou-se numa corrida louca!
Nos Estados Unidos, começou, com o nome de slow living, viver com calma, a tendência para abrandar, sentir a necessidade de viver com menos complicações, mais simplicidade e mais relacionamentos humanos.
Muitas pessoas procuram encontrar tempo para si, para tomar consciência das próprias palavras e acções; para avaliar os numerosos caminhos a percorrer para manter as relações de amor e de amizade; arranjar tempo para contemplar e colocar perguntas, para pensar, para examinar o coração, para descobrir dentro de nós tantos tesouros.
Mas é também preciso tempo para rezar: escutarmos a Deus, falar-lhe de nós, dos nossos desejos, das nossas alegrias e dos nossos pesos, dos que nos são queridos, de tantas pessoas mergulhadas numa sociedade tão complexa.
A preparação do Natal exige que arranjemos tempo, para parar, para reflectir. Como advertir os passos d’Aquele que vem semear no mundo a alegria, se não com o silêncio? Como ver a presença d’Aquele que vem caminhar connosco nas estradas da vida, se o nosso olhar está distraído com mil coisas? Como tocar o rosto d’Aquele que assume corpo e coração humanos, se não paramos? Há que encontrar tempo!
N.M.