Sunday, October 26, 2008

Que nome lhe darias?

Segundo um estudo recente da Direcção-Geral de Saúde, o Hospital de  S.Teotónio, em Viseu, realizou em 2007, 103 abortos a pedido.  O concelho de Viseu lidera os pedidos de aborto (37) e segundo este estudo cada mulher esperou cerca de 2,7 dias pela consulta prévia para realizar o aborto.
O acesso ao serviço para a interrupção foi efectuado, em 63 por cento dos casos, por iniciativa da própria mulher, embora cerca de 15,5 tenha sido encaminhada pelos centros de saúde. A maioria das mulheres, 54 por cento, que efectuaram uma IVG na região Centro vivem em casal e o nível de instrução mais representativo é o Ensino Secundário, seguido do Ensino Superior. Em 30, 7 por cento dos casos, a mulher é uma trabalhadora não qualificada. As estudantes constituem 16,3 por cento dos casos e 11,5 por cento são desempregadas. Para 88 por cento é a primeira interrupção que realizam e encontravam-se entre a sétima e a nona semana de gestação. O estudo revela, ainda, que a maioria das mulheres da região centro que recorreram ao aborto voluntário não estiveram em nenhuma consulta, no último ano, para a utilização ou controlo de métodos contraceptivos
O Hospital de S.Teotónio é a única instituição de saúde da rede de hospitais públicos do distrito que efectua a IVG até às dez semanas de gestação.
Não se pode discutir a questão do aborto simplesmente como uma questão biológica, científica ou de saúde. Independentemente das convicções e dos valores que configuram a sua vida, nenhuma mulher chega ao aborto, sem um protesto da sua consciência, pois a recusa de tal acto está inscrita no íntimo de cada um, no inconsciente.
Após a fecundação, o que a mulher leva no seu seio não é simplesmente um conjunto de células, é um ser humano a crescer velozmente e são impossíveis “absolvições” ou “justificações psicológicas” para a interrupção deliberada da gravidez.
Mesmo nas situações mais dramáticas e quando no horizonte se coloca como possibilidade o recurso ao aborto é preciso parar e perguntar-se ou alguém perguntar: “Que nome darias à criança se viesse a nascer?”  N.M.
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Monday, August 4, 2008

Inteligente e preguiçoso

Com o início do novo ano escolar vai de novo repetir-se muitas vezes pelas escolas dos vários ciclos a frase: “É inteligente, mas não estuda!”. Perguntam-se os pais, os professores e educadores: o que fazer para ajudar os jovens a libertarem-se da preguiça escolar?
Está provado, pela experiência e pelas leis da psicologia, que não produz grande efeito lembrar as vantagens futuras do estudo. Há que ter em conta uma lei psicológica sobre a teoria da motivação, segundo a qual uma vantagem exerce menos efeito no comportamento presente, quanto mais tarde se verifica e quanto mais é desconhecida.
Por isso, há que procurar vantagens mais imediatas, ainda que não sejam materiais. Cada acção positiva dos filhos, merece ao menos um sorriso e o brilho dos olhos dos pais, pois tantas vezes os educadores só intervêm quando há problemas…
Não nos iludamos: as punições, o estabelecer limites, a correcção … são necessários, sem eles não se educa. Mas são ainda mais imprescindíveis da parte dos pais e dos educadores o interesse, o louvor, o apreço, a alegria … N.M.
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Monday, July 7, 2008

Ser Pai

A experiência da paternidade/maternidade está profundamente enraizada na condição humana, sendo evidentes e profundas as mudanças que progressivamente se vão verificando nas últimas décadas na cultura ocidental, no que se refere do ser pai. É hoje muito frequente encontrar o pai como o progenitor activo, envolvido na prestação de serviços à criança –– mudar fraldas, dar banho, interagindo frequentemente com ela, partilhando tarefas domésticas e de educação –– em que  as dimensões instrumentais são equilibradas com as emocionais e afectivas.

 Podemos assim compreender melhor que Deus-Pai não é aquela figura distante e longínqua que nos foi transmitida ao longo de gerações, mas é um Pai que estabelece preferencialmente uma relação marcada pela ternura, pelo amor, pelo respeito e pela confiança, que se identifica mais com o Pai que nos revelou Jesus Cristo. Aliás, quando Cristo chama a Deus de Abba remeteu os seus contemporâneos para a experiência vital da relação humana pai/filho, experiência que indiciava contornos de uma proximidade e intimidade que os escribas e fariseus consideraram escandalosos, funcionando como um dos argumentos mais decisivos para O condenarem à morte.

A visão de complementaridade e cooperante a que se vai chegando na cultura actual sobre o ser pai e o ser mãe e o reconhecimento da sua importância no desenvolvimento das futuras gerações ajuda-nos a perceber, através desta matriz humana, que o Deus dos cristãos, Aquele que Jesus nos revelou no Evangelho é um Deus com um rosto de Pai e de Mãe, a quem podemos chamar de papá (Abba), sendo a grande referência ética e simultaneamente de ternura e Amor.

N.M.

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Wednesday, June 11, 2008

A Comunidade

Martin Buber (1878-1965) procurou oferecer uma saída para a crise do homem contemporâneo: o estabelecimento sólido da comunidade, a mais autêntica forma de organização social.  

Tudo parte da relação, que não é uma propriedade do homem, mas algo que acontece entre o homem e o que lhe está diante (Eu e Tu, 1923).

Buber fala de relação essencial, diálogo, encontro, inter-humano. Tais conceitos não são simples sinónimos. O encontro é algo actual, a relação engloba o encontro, ela possibilita um encontro sempre renovado. O diálogo é para ele a forma explicativa do fenómeno do inter-humano. O inter-humano é a realização concreta da vida dialógica, uma vez que, nesta situação, a pessoa se confronta realmente com outra, cada uma confirmando a outra reciprocamente.

No inter-humano não há lugar para as aparências ou para o simples “estar-ao-lado-do-outro”, para a imposição, a falsidade.

O dialógico realiza-se no inter-humano como um voltar-se para o outro, bem determinado e concreto e este ao voltar-se alicerça o estabelecimento de um “nós” que resguarda a individualidade, a responsabilidade e a liberdade de cada um. O “nós” congrega todos pela força de um centro comum, esteio da comunidade.

Para Buber somente este novo tipo de relações humanas - o dialógico - pode garantir mudança no estado em que o homem se encontra actualmente.

É muito importante o pensamento de  Buber,  pois faz com que  reformulemos a nossa concepção do homem: não somos seres meramente individuais, somos sim seres em relação e cada vez que um homem se abre à presença do outro e dialoga, começa a sua libertação e a redenção do mundo.

A grande crise da nossa época é, também, uma crise de confiança, mas a difícil e única saída é abrir-se ao outro.

Descobrimos, assim, ajudados por Martin Buber uma das causas da solidão e amargura em que tanta gente hoje vive. Trata-se da tentativa de construir um projecto de vida, isoladamente, sem ser incomodado por ninguém, sem relação, a partir de um “eu” fechado em si mesmo, que nada recebe e nada entrega.

Buber repete-nos, até à saciedade, nas suas obras: recebemo-nos uns dos outros!

 

N.M.

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Wednesday, May 7, 2008

“Vida com Esperança”

A Semana da Vida deste ano (11 a 18 de Maio) propõe-se reafirmar a Esperança, apesar da realidade quotidiana nos apresentar o homem de hoje como um ser profundamente lacerado: no seu interior, pela experiência negativa no que se refere ao bem que sonhava e pela incapacidade de perseguir a utopia; no exterior, pela verificação histórica de uma série de desilusões em que o deixou o mundo das ideologias e dos projectos revolucionários incompletos. Ficou um sentido de vazio profundo e muitos procuram o remédio na esfera do privado. São sábias as palavras de Maria Zambrano: “O homem ao afirmar-se a si mesmo tropeçou consigo próprio, enredou-se na sua própria sombra, no seu próprio sonho, na sua imagem; o sonho do seu poder e ainda do seu ser levado ao extremo, convertido em absoluto” (Pessoa e Democracia63).

É grande e urgente o desafio de reconstruir um eu íntegro, ou unificado, libertando-o das tendências do ego, ou seja da avidez de possuir e de se considerar absoluto. O eu unificado atinge-se esvaziando-se de si, despojando-se para se enriquecer na comunhão com Deus e com os outros. É tudo isto que nos ensina o Evangelho.

Bento XVI, na sua última Encíclica, Spe Salvi (Salvos na Esperança) desafia todos a trilhar os caminhos da Esperança fundamentada na Fé em Jesus Cristo. Uma fé que “atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro ‘ainda não’ (SS 7) e uma Esperança que nos implica, nos compromete no “aqui agora” e nos desafia a construir a história a partir das coordenadas das realidades últimas e não das penúltimas, porque finitas e limitadas.

N.M.

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Monday, March 31, 2008

Recebemo-nos uns dos outros

A obra de Martin Buber, em que tem lugar de destaque e referência constante o livro “Eu e Tu” (1923), centra-se na afirmação das relações interpessoais e comunitárias da condição humana: “No princípio está a relação”.

O pensamento de Buber sublinha que não somos seres meramente individuais, somos sim seres em relação e cada vez que um homem se abre à presença do outro e dialoga, começa a sua libertação e a redenção do mundo.

Cada vez mais abrem caminho no mundo ocidental, o individualismo, o egoísmo e a indiferença, no contexto da sociedade do hiper-consumo. Surge e alastra um novo culto, o do “eu”, onde o outro está quase sempre a mais e não lhe é permitido ocupar senão três posições: uma coisa a possuir ou a deitar fora, um meio a utilizar para eu atingir os meus fins, ou um rival a eliminar.

Há uma grande diferença entre o dom e a posse: a posse é solidão! Enquanto virmos apenas objectos, estamos sós. O dom (relação) é como um vaso muito frágil cheio de afecto. Quebra-se logo que o recebedor o comece a considerar como seu.

Descobrimos, assim, ajudados por Martin Buber, uma das causas da solidão e amargura em que tanta gente hoje vive. Trata-se da tentativa de construir um projecto de vida, isoladamente, sem ser incomodado por ninguém, sem relação, a partir de um “eu” fechado em si mesmo, que nada recebe e nada entrega. Buber repete-nos, até à saciedade, nas suas obras: recebemo-nos uns dos outros!

N.M.

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Wednesday, March 5, 2008

A Raiva

São muitos os jovens adolescentes que nem sequer querem ouvir os seus pais, reagindo quase sempre agressivamente. Não é preciso procurar muito para descobrir o marido que por tudo e por nada se zanga com a esposa cansada e preocupada. Recorde-se a mulher nervosa, que não admite a mais pequena observação e ainda o empregado que ao chegar a casa atormenta a família com palavrões sempre que o seu chefe estava de mau humor.

Falamos da raiva, resíduo em nós do reino infantil do capricho e das emoções sem controle. Basta observar a reacção das crianças pequenas quando são contrariadas: desatam a berrar, logo naquela circunstância em que era preciso silêncio. A criança é prepotente e agressiva, porque no fundo não consegue captar a diferença entre o próprio “Eu” e o mundo que a circunda.

O adulto comporta-se com raiva porque tem medo de não ser suficientemente importante, reconhecido e amado. O seu “Eu” enche-se de furor para mascarar o sentimento de insegurança.

Urge cultivar com paciência e perseverança, em tempo quaresmal, a mansidão. É oportuno recordar e fixar as sábias palavras de Hugo de S.Vitor: “A soberba tira-me Deus, a inveja o próximo, a ira a mim mesmo”.

 

N.M.

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Wednesday, February 13, 2008

Reconciliar-se

Vivemos num mundo fragmentado e com ritmos quotidianos que não são propícios à unificação do ser profundo. É eloquente a descrição de Lipovetsky: “Quanto mais a sociedade se humaniza, mais o sentimento do anonimato se estende; quanto mais há indulgência e tolerância, mais aumenta a falta de segurança do indivíduo em relação a si próprio; quanto mais se prolonga o tempo de vida, mais cedo se tem de envelhecer; quanto menos se trabalha, menos se quer trabalhar; quanto mais os costumes se liberalizam, mais avança a impressão de vazio; quanto mais a comunicação e o diálogo se institucionalizam, mais sós se sentem os indivíduos e com maiores dificuldades de contacto; quanto mais cresce o bem estar, mais a depressão triunfa” (LIPOVETSKY, Gilles – A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água, 1989, 118).

Podemos acrescentar muitas outras questões paradoxais que estão hoje na ordem do dia, tais como: Porquê a desvalorização da vida humana nascente, na escala de valores? Como foi possível à nossa cultura, que se reclama humanista, pôr a liberdade humana contra a vida humana? Porquê a distinção discriminatória entre os seres humanos nascidos e os nascituros em gestação? Porque é que as leis humanas parecem interessar-se mais pela protecção de certas espécies vegetais (como o cortar determinada árvore) ou animais (como os ovos de cegonha) do que do ser humano em embrião ou feto?

Neste tempo marcado pela violência para muitos e de sobressalto para quase todos, em tempo de Quaresma, urge percorrer os caminhos da reconciliação com Deus, consigo próprio, com os outros, pressentir novos horizontes e decantar as perguntas que sempre assomam na nossa existência.

N.M.

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Friday, January 4, 2008

“Os Limites”

Há algum tempo, surgiu nas salas de cinema um filme  intitulado «Treze: a inocência perdida», realizado por Catherine Hardwick. O filme retrata a vida de uma família da classe média americana, sobretudo a de uma jovem adolescente com treze anos, que vive com a mãe e o irmão mais velho, uma vez que os pais estão divorciados. 

Numa tentativa de se encontrar a si própria, a protagonista do filme acaba por cair numa vida marginal: desleixando os estudos, roubando, consumindo drogas e aventurando-se numa vida sexual promíscua. A mãe vai assistindo a este processo de decadência e destruição da própria filha, numa passividade que se confunde com tolerância e amor. Ora, é precisamente aqui é que está o grande perigo! Ao não criar limites a mãe acaba por esvaziar a sua presença e o seu próprio papel.

            Os pais excessivamente bons e permissivos são tanto ou mais prejudiciais para os jovens como aqueles demasiado severos. É errado pensar que se pode educar sem limites. Os jovens precisam desses limites e os pais têm aqui um papel fundamental. Criar limites aos filhos é uma prova de amor! A ausência de limites gera confusão e leva a um «caos interior».

            Por vezes é preciso dizer «não», «basta» ou «chega»! Não se pode fazer tudo o que se quer, ou o que se deseja. Porquê? Porque a vida não é assim! Por isso, é preciso aprendê-lo desde cedo.

            O Dr. João dos Santos (um dos fundadores da pedopsiquiatria em Portugal) numa conferência que dava sobre sexualidade a determinada altura surgiu uma mãe que lhe colocou a seguinte questão:

            «Eu já expliquei ao meu filho tudo sobre o nascimento das crianças, e ele agora quer ver mesmo como é que os pais fazem, quer estar lá no quarto para ver como é. O que é que o Sr. fazia?», ao que o Dr. João dos Santos respondeu com simplicidade: «Olhe minha Sra., se fosse comigo eu dava-lhe dois estalos…!».

 

N.M.

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Thursday, December 6, 2007

O Stress

A palavra stress foi adoptado pela primeira vez em 1936, pelo cientista canadense, Hans Selye. Com o passar dos anos tornou-se um termo jornalístico relacionado com o cansaço, com o esforço, com o peso das responsabilidades e solicitações. Indica uma reacção não especifica do organismo.

É decisivo que tomemos consciência de que há hoje demasiada pressa, exagerada ansiedade, excesso de tecnologia: a nossa existência tornou-se numa corrida louca!

Nos Estados Unidos, começou, com o nome de slow living, viver com calma, a tendência para abrandar, sentir a necessidade de viver com menos complicações, mais simplicidade e mais relacionamentos humanos.

Muitas pessoas procuram encontrar tempo para si, para tomar consciência das próprias palavras e acções; para avaliar os numerosos caminhos a percorrer para manter as relações de amor e de amizade; arranjar tempo para contemplar e colocar perguntas, para pensar, para examinar o coração, para descobrir dentro de nós tantos tesouros.

Mas é também preciso tempo para rezar: escutarmos a Deus, falar-lhe de nós, dos nossos desejos, das nossas alegrias e dos nossos pesos, dos que nos são queridos, de tantas pessoas mergulhadas numa sociedade tão complexa.

A preparação do Natal exige que arranjemos tempo, para parar, para reflectir. Como advertir os passos d’Aquele que vem semear no mundo a alegria, se não com o silêncio? Como ver a presença d’Aquele que vem caminhar connosco nas estradas da vida, se o nosso olhar está distraído com mil coisas? Como tocar o rosto d’Aquele que assume corpo e coração humanos, se não paramos? Há que encontrar tempo!

N.M.

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