Wednesday, February 13, 2008

Reconciliar-se

Vivemos num mundo fragmentado e com ritmos quotidianos que não são propícios à unificação do ser profundo. É eloquente a descrição de Lipovetsky: “Quanto mais a sociedade se humaniza, mais o sentimento do anonimato se estende; quanto mais há indulgência e tolerância, mais aumenta a falta de segurança do indivíduo em relação a si próprio; quanto mais se prolonga o tempo de vida, mais cedo se tem de envelhecer; quanto menos se trabalha, menos se quer trabalhar; quanto mais os costumes se liberalizam, mais avança a impressão de vazio; quanto mais a comunicação e o diálogo se institucionalizam, mais sós se sentem os indivíduos e com maiores dificuldades de contacto; quanto mais cresce o bem estar, mais a depressão triunfa” (LIPOVETSKY, Gilles – A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água, 1989, 118).

Podemos acrescentar muitas outras questões paradoxais que estão hoje na ordem do dia, tais como: Porquê a desvalorização da vida humana nascente, na escala de valores? Como foi possível à nossa cultura, que se reclama humanista, pôr a liberdade humana contra a vida humana? Porquê a distinção discriminatória entre os seres humanos nascidos e os nascituros em gestação? Porque é que as leis humanas parecem interessar-se mais pela protecção de certas espécies vegetais (como o cortar determinada árvore) ou animais (como os ovos de cegonha) do que do ser humano em embrião ou feto?

Neste tempo marcado pela violência para muitos e de sobressalto para quase todos, em tempo de Quaresma, urge percorrer os caminhos da reconciliação com Deus, consigo próprio, com os outros, pressentir novos horizontes e decantar as perguntas que sempre assomam na nossa existência.

N.M.

Posted by N.M. at 11:04:34 | Permalink | No Comments »