Monday, March 31, 2008

Recebemo-nos uns dos outros

A obra de Martin Buber, em que tem lugar de destaque e referência constante o livro “Eu e Tu” (1923), centra-se na afirmação das relações interpessoais e comunitárias da condição humana: “No princípio está a relação”.

O pensamento de Buber sublinha que não somos seres meramente individuais, somos sim seres em relação e cada vez que um homem se abre à presença do outro e dialoga, começa a sua libertação e a redenção do mundo.

Cada vez mais abrem caminho no mundo ocidental, o individualismo, o egoísmo e a indiferença, no contexto da sociedade do hiper-consumo. Surge e alastra um novo culto, o do “eu”, onde o outro está quase sempre a mais e não lhe é permitido ocupar senão três posições: uma coisa a possuir ou a deitar fora, um meio a utilizar para eu atingir os meus fins, ou um rival a eliminar.

Há uma grande diferença entre o dom e a posse: a posse é solidão! Enquanto virmos apenas objectos, estamos sós. O dom (relação) é como um vaso muito frágil cheio de afecto. Quebra-se logo que o recebedor o comece a considerar como seu.

Descobrimos, assim, ajudados por Martin Buber, uma das causas da solidão e amargura em que tanta gente hoje vive. Trata-se da tentativa de construir um projecto de vida, isoladamente, sem ser incomodado por ninguém, sem relação, a partir de um “eu” fechado em si mesmo, que nada recebe e nada entrega. Buber repete-nos, até à saciedade, nas suas obras: recebemo-nos uns dos outros!

N.M.

Posted by N.M. at 12:41:48 | Permalink | No Comments »

Wednesday, March 5, 2008

A Raiva

São muitos os jovens adolescentes que nem sequer querem ouvir os seus pais, reagindo quase sempre agressivamente. Não é preciso procurar muito para descobrir o marido que por tudo e por nada se zanga com a esposa cansada e preocupada. Recorde-se a mulher nervosa, que não admite a mais pequena observação e ainda o empregado que ao chegar a casa atormenta a família com palavrões sempre que o seu chefe estava de mau humor.

Falamos da raiva, resíduo em nós do reino infantil do capricho e das emoções sem controle. Basta observar a reacção das crianças pequenas quando são contrariadas: desatam a berrar, logo naquela circunstância em que era preciso silêncio. A criança é prepotente e agressiva, porque no fundo não consegue captar a diferença entre o próprio “Eu” e o mundo que a circunda.

O adulto comporta-se com raiva porque tem medo de não ser suficientemente importante, reconhecido e amado. O seu “Eu” enche-se de furor para mascarar o sentimento de insegurança.

Urge cultivar com paciência e perseverança, em tempo quaresmal, a mansidão. É oportuno recordar e fixar as sábias palavras de Hugo de S.Vitor: “A soberba tira-me Deus, a inveja o próximo, a ira a mim mesmo”.

 

N.M.

Posted by N.M. at 12:13:39 | Permalink | No Comments »