Recebemo-nos uns dos outros
A obra de Martin Buber, em que tem lugar de destaque e referência constante o livro “Eu e Tu” (1923), centra-se na afirmação das relações interpessoais e comunitárias da condição humana: “No princípio está a relação”.
O pensamento de Buber sublinha que não somos seres meramente individuais, somos sim seres em relação e cada vez que um homem se abre à presença do outro e dialoga, começa a sua libertação e a redenção do mundo.
Cada vez mais abrem caminho no mundo ocidental, o individualismo, o egoísmo e a indiferença, no contexto da sociedade do hiper-consumo. Surge e alastra um novo culto, o do “eu”, onde o outro está quase sempre a mais e não lhe é permitido ocupar senão três posições: uma coisa a possuir ou a deitar fora, um meio a utilizar para eu atingir os meus fins, ou um rival a eliminar.
Há uma grande diferença entre o dom e a posse: a posse é solidão! Enquanto virmos apenas objectos, estamos sós. O dom (relação) é como um vaso muito frágil cheio de afecto. Quebra-se logo que o recebedor o comece a considerar como seu.
Descobrimos, assim, ajudados por Martin Buber, uma das causas da solidão e amargura em que tanta gente hoje vive. Trata-se da tentativa de construir um projecto de vida, isoladamente, sem ser incomodado por ninguém, sem relação, a partir de um “eu” fechado em si mesmo, que nada recebe e nada entrega. Buber repete-nos, até à saciedade, nas suas obras: recebemo-nos uns dos outros!
N.M.