A Comunidade
Martin Buber (1878-1965) procurou oferecer uma saída para a crise do homem contemporâneo: o estabelecimento sólido da comunidade, a mais autêntica forma de organização social.
Tudo parte da relação, que não é uma propriedade do homem, mas algo que acontece entre o homem e o que lhe está diante (Eu e Tu, 1923).
Buber fala de relação essencial, diálogo, encontro, inter-humano. Tais conceitos não são simples sinónimos. O encontro é algo actual, a relação engloba o encontro, ela possibilita um encontro sempre renovado. O diálogo é para ele a forma explicativa do fenómeno do inter-humano. O inter-humano é a realização concreta da vida dialógica, uma vez que, nesta situação, a pessoa se confronta realmente com outra, cada uma confirmando a outra reciprocamente.
No inter-humano não há lugar para as aparências ou para o simples “estar-ao-lado-do-outro”, para a imposição, a falsidade.
O dialógico realiza-se no inter-humano como um voltar-se para o outro, bem determinado e concreto e este ao voltar-se alicerça o estabelecimento de um “nós” que resguarda a individualidade, a responsabilidade e a liberdade de cada um. O “nós” congrega todos pela força de um centro comum, esteio da comunidade.
Para Buber somente este novo tipo de relações humanas - o dialógico - pode garantir mudança no estado em que o homem se encontra actualmente.
É muito importante o pensamento de Buber, pois faz com que reformulemos a nossa concepção do homem: não somos seres meramente individuais, somos sim seres em relação e cada vez que um homem se abre à presença do outro e dialoga, começa a sua libertação e a redenção do mundo.
A grande crise da nossa época é, também, uma crise de confiança, mas a difícil e única saída é abrir-se ao outro.
Descobrimos, assim, ajudados por Martin Buber uma das causas da solidão e amargura em que tanta gente hoje vive. Trata-se da tentativa de construir um projecto de vida, isoladamente, sem ser incomodado por ninguém, sem relação, a partir de um “eu” fechado em si mesmo, que nada recebe e nada entrega.
Buber repete-nos, até à saciedade, nas suas obras: recebemo-nos uns dos outros!
N.M.